Cláudia Furtado leva memória baleeira do Faial à Nova Inglaterra
A memória baleeira do Faial esteve este verão em destaque na Nova Inglaterra, através do trabalho da artista faialense
Cláudia Furtado, especializada em scrimshaw.
Conhecida também pelos projetos de arte pública ligados à história
da baleação, a artista foi convidada a apresentar o seu trabalho nos Estados Unidos da América (EUA).
Em entrevista ao Tribuna das Ilhas, Cláudia Furtado recordou os
momentos mais marcantes desta experiência.
Tribuna das Ilhas (TI) – Este verão foi aos Estados Unidos, apresentar o seu trabalho na Nova Inglaterra. Como surgiu o convite?
Cláudia Furtado (CF) – O convite surgiu através da Hotel Papel, da DATMA – Design, Art & Technology Massachusetts e do grupo de participantes da residência artística Hotel Papel, realizada no Faial em janeiro deste ano, no âmbito de um programa artístico e cultural desenvolvido em New Bedford.
O projeto ganhou uma dimensão maior do que inicialmente imaginámos. Durante a minha estadia, participei numa residência artística de cerâmica, apresentei o meu trabalho em diferentes contextos, realizei demonstrações de scrimshaw e participei em encontros com artistas e investigadores.
Tive ainda a oportunidade de apresentar uma exposição individual e realizar o meu primeiro artist talk internacional.
A minha exposição individual, “Routes of Atlantic Memory – From Navigation to Whaling”, foi apresentada no Consulado-Geral de Portugal em New Bedford, integrada nas celebrações da independência da América, e também nas celebrações no Navio SAGRES, sobre a partilha da herança marítima e da ligação histórica entre Portugal, os Açores e os EUA.
Um dos momentos mais marcantes foi o convite do Mystic Seaport Museum para realizar demonstrações de scrimshaw a bordo do histórico navio baleeiro Charles W. Morgan, durante as celebrações do seu aniversário.
Esta experiência representou algo muito especial porque o scrimshaw foi o ponto de partida da minha carreira artística profissional. Foi através desta prática que comecei a investigar mais profundamente a história marítima e baleeira do Faial e as ligações entre os Açores e Nova Inglaterra.
Estar nos EUA permitiu-me conhecer lugares, coleções, museus e comunidades que até então faziam parte da minha investigação, mas que conhecia apenas através de livros, fotografias, arquivos ou contactos à distância.
TI – O seu trabalho mereceu destaque no Portuguese Times e em publicações associadas à USA Today Network. Que importância teve esta divulgação?
CF – Recebi essa atenção com muita surpresa e gratidão. Quando viajei para os EUA, o meu principal objetivo era desenvolver o trabalho artístico, participar na residência e conhecer melhor a história e o contexto cultural da Nova Inglaterra.
Nunca imaginei que a experiência pudesse ter uma cobertura tão significativa por parte da comunicação social.
Esta divulgação permitiu que o projeto chegasse a um público mais amplo, incluindo comunidades portuguesas e açorianas nos EUA, mas também pessoas que não conheciam o meu trabalho ou a prática contemporânea de scrimshaw.
Esta visibilidade é importante não apenas para mim enquanto artista, mas também porque permite dar a conhecer uma parte da história faialense e da cultura açoriana através de uma linguagem artística contemporânea.
Grande parte do meu trabalho está ligado ao Faial, à baleação, à navegação, à memória marítima e à relação histórica dos Açores com o Atlântico.
Espero que possa contribuir para abrir novas oportunidades e permitir que o meu trabalho continue a chegar a novos públicos e instituições. Levar estas narrativas a uma região onde existe uma ligação histórica tão forte com os Açores e com a comunidade açoriana, teve um significado muito especial
TI – Apresentar o seu trabalho a um público diferente teve algum desafio? Como foi a reação das pessoas?
CF – Naturalmente, existia algum nervosismo, sobretudo porque estava a apresentar o meu trabalho num contexto internacional e a comunicar integralmente em inglês.
O meu Artist Talk na DATMA, “Across the Atlantic: From Scrimshaw to Public Art and Ceramics”, foi uma experiência muito importante. Foi a primeira vez que apresentei internacionalmente o meu percurso artístico de uma forma tão abrangente, ligando o scrimshaw, a arte pública e a cerâmica como diferentes manifestações da mesma investigação sobre memória e superfície.
Foi também apresentado o documentário “Beauty Between Surfaces”, realizado por Carley Byers, participante na residência artística da Hotel Papel, sobre o meu percurso e processo artístico no Faial. Este documentário integrou também a minha exposição “Estações Baleeiras do Faial – Scrimshaw de Cláudia Furtado”, que esteve patente no Museu da Horta, de maio a agosto.
Uma das coisas que mais me surpreendeu nos EUA foi perceber que, apesar das diferenças culturais e linguísticas, muitos dos temas presentes no meu trabalho são facilmente compreendidos pelo público.
A memória, a relação com o mar, a migração, a história familiar e a identidade são temas universais.
A reação das pessoas foi extremamente positiva. Conheci artistas, investigadores, curadores, colecionadores e pessoas ligadas a museus que demonstraram um interesse genuíno pelo meu trabalho.
Foi importante perceber que o scrimshaw contemporâneo, quando apresentado não apenas como uma técnica tradicional, mas como uma linguagem artística capaz de abordar memória, património e identidade, pode estabelecer diálogo com públicos muito diferentes.
TI – Esta experiência representa uma nova etapa no seu percurso? Existe a possibilidade de desenvolver novos projetos nos Estados Unidos?
CF – Sem dúvida que representa uma nova etapa. A viagem permitiu-me estabelecer contactos que dificilmente seriam possíveis apenas através da internet.
Tive oportunidade de conhecer pessoalmente artistas de scrimshaw, ceramistas, curadores, responsáveis por museus e diferentes instituições culturais.
Durante a estadia conheci pessoas ligadas ao New Bedford Whaling Museum, ao Mystic Seaport Museum, à DATMA e a outros projetos culturais da região. Houve também conversas sobre futuras possibilidades de colaboração e sobre a continuidade da investigação artística relacionada com o património atlântico.
Acredito que esta viagem não representa um ponto final, mas sim o início de uma nova fase.
Existe um enorme potencial para continuar a explorar artisticamente a relação entre os Açores e a Nova Inglaterra, através da baleação, da navegação, da migração e da diáspora, criando interpretações contemporâneas dessa história.
TI – O que trouxe desta experiência, tanto a nível profissional como pessoal?
CF – Trouxe muitas coisas, algumas materiais, mas sobretudo experiências e relações.
Enquanto artista, esta viagem permitiu confirmar algo que tenho vindo a sentir ao longo dos últimos anos: o meu trabalho não está limitado a uma técnica ou a um único meio artístico.
O scrimshaw foi o ponto de partida do meu percurso profissional e levou-me a investigar a história marítima do Faial. A partir daí, essa investigação expandiu-se para o desenho, a arte pública, a escultura e, mais recentemente, para a cerâmica.
Apesar de trabalhar em meios aparentemente distintos, existe uma linha comum: a investigação sobre a forma como a memória é registada, partilhada e preservada através das superfícies.
Enquanto pessoa, trouxe uma maior consciência da dimensão internacional das histórias que fazem parte da nossa identidade açoriana.
Crescemos a ouvir falar da emigração e da ligação dos Açores aos EUA, mas estar em New Bedford e conhecer pessoas e instituições ligadas a essa história permitiu-me compreender essa relação de uma forma muito mais direta. As relações que se estabeleceram são, provavelmente, uma das coisas mais importantes que trouxe desta viagem.
TI – Depois desta experiência, que objetivos e projetos tem agora pela frente?
CF – Quero continuar a desenvolver a investigação artística em torno da memória atlântica, do património marítimo e da relação entre o Faial, os Açores e outras geografias ligadas a essa história.
A residência artística nos EUA trouxe-me também um interesse ainda maior em continuar a explorar a cerâmica, experimentando novos materiais e processos.
Paralelamente, quero continuar a trabalhar em projetos de arte pública e comunitária, ligados à identidade local e ao património dos Açores.
Considero importante que as entidades públicas comecem a apoiar os projetos propostos, para continuar a criar obras que possam estabelecer uma relação direta com as comunidades locais, os visitantes e os lugares onde são realizadas.
Um dos meus interesses passa por desenvolver projetos que estabeleçam pontes entre o scrimshaw e outras linguagens contemporâneas, incluindo a gravura, a cerâmica e projetos de grande escala em espaço público.
Depois desta experiência, sinto também uma responsabilidade maior em continuar a levar a cultura e as histórias do Faial e dos Açores para outros contextos internacionais.
A viagem mostrou-me que existem muitas histórias comuns entre os dois lados do Atlântico. O objetivo é continuar a criar, investigar e desenvolver novas colaborações, sem perder a ligação às minhas origens no Faial.


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